metaverse

Não preciso do ChatGPT para saber como eu seria nos anos 80. Eu já sei.

Eu seria uma pobre descabelada, assim como hoje em dia, correndo nos corredores do supermercado para colocar todos os itens de que eu preciso no carrinho antes que um funcionário reetiquetasse os preços na época em que a inflação era medida com porcentagens na casa das centenas. 

Jaqueta colorida? Nada disso, nunca gostei de roupas coloridas. Assim como hoje, eu só teria roupas pretas e cinzas, com raras exceções para blusas bordô e caramelo. 

Permanente no cabelo? Nem pensar! Tenho uma preguiça absurda de salão de beleza e procedimentos estéticos. A última vez que cortei o cabelo, eu estava incomodada, fui a um salão qualquer no horário de almoço e perguntei "vocês têm vaga para cortar meu cabelo AGORA?". Creio que não seja possível fazer um permanente em menos de 30 minutos, então nada feito. Também não sou fã de blush rosa claro no meio da bochecha, claramente roubado da estética das festas juninas. 

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Politicamente, eu seria a favor do movimento Diretas Já (óbvio), mas nunca me prestaria ao papel de ir para a rua protestar. Carregar cartaz na rua é o equivalente a subir hashtag no Twitter: não adianta porcaria nenhuma. Se não for para tacar fogo em um ônibus ou quebrar vidraça de agência bancária, eu nem saio de casa — e normalmente não saio. Se a política dependesse da minha opinião, Flávio Dino seria presidente. Mas, se dependesse das minhas ações, provavelmente viveríamos na ditadura do Bolsonaro. Ou do Collor. Ou do Sarney.

Eu teria celebrado a promulgação da Constituição Cidadã. Ao lado do SUS, a nossa constituição é uma das coisas de que mais tenho orgulho no nosso país. Ela é prolixa? Sim. É totalmente seguida? Quem dera. Mas tenho orgulho de viver em um país em que você não precisa discutir se a educação e a saúde são direitos universais. Claro, tem doidinho que discorda e vai falar merda sobre isso. Mas você não precisa discutir com eles. Opinião não muda fato.

E os doidinhos sempre estarão por aí. Provavelmente perguntando pro ChatGPT como eles seriam nos anos 80.

writer in the dark

Finalmente meu processo de desalfabetização foi concluído.

Não sei se foi o álcool, o excesso de TikTok ou o uso frequente do Claude, mas aconteceu. Há meses sinto vontade de escrever, estudar, fazer coisas (viver!), mas termino passando meu tempo livre bebendo Orloff, ouvindo podcasts sobre casos criminais e jogando Royal Match - sim, tudo ao mesmo tempo. Ao contrário do professor (e audiodoutorando) Cerginho da Pereira Nunes, não estou aprendendo palavras novas. Há mais de um ano não termino a leitura de um livro e tenho a impressão de que todas as canetas que comprei já devem ter secado. Sei que qualquer adulto funcional tentaria melhorar, buscar ajuda, marcar uma consulta com a psiquiatra, encontrar um trabalho voluntário para fazer no final de semana ou algo assim, mas eu continuo existindo de forma meramente funcional enquanto espero a morte.

Deve ser normal viver assim, certo? Tipo, nem todo mundo vive como uma blogueira de Instagram: viajando, indo a cafés e feiras livres, fazendo DIYs e indo à academia todos os dias. Pessoas normais não fazem essas coisas, né? 

Nesse meio tempo, coisas aconteceram. Principalmente no trabalho - que é a única atividade que continuo me obrigando a fazer porque preciso de dinheiro para comprar vodca e moedinhas do Royal Match. Um cara que trabalhava aqui matou alguém, outro roubou dinheiro público, outro tá traindo a esposa (que também trabalha aqui) com uma colega de setor e todo mundo sabe, menos a corna. Eu surtei algumas vezes, mudei de área (apesar de não ter mudado de emprego), peguei ranço absurdo de uma pessoa próxima e aparentemente vou ganhar um aumento por fazer coisas que são minha obrigação (??? me parece incoerente, mas se querem me dar mais dinheiro, quem sou eu para negar?). Um parente me pediu dinheiro emprestado por mensagem no WhatsApp (porque hoje o otário não precisa sair de casa para ser vítima de golpe), uma amiga deu prioridade para um web contatinho em detrimento de mim, troquei o The Sims pelo Paralives e comi um risoto de camarão maravilhoso (penso nele pelo menos uma vez por semana).

Passo muitos dos meus dias remoendo essas coisas. Minha psicóloga, em quem estou dando ghosting há alguns meses, diria que é um pensamento disfuncional e que eu deveria me policiar, usar o pensamento socrático e que "nem tudo o que você pensa é verdade". Entretanto, eu me afundo num poço de rancor e ruminação. Por que essa pessoa fez isso comigo? Como diabos essa pessoa pensa que pode me tratar dessa forma? Por que eu não joguei uma cadeira na cara dessa pessoa logo na primeira vez em que ela passou dos limites? Em qual momento minha vida desandou? Quais decisões eu tomei errado? Será que sou imune ao conhecimento?

Sou a autointitulada presidente da Coitadolândia
(em breve me tornarei a Suprema Ditadora da Coitadolândia, aguardem).

Tenho vontade de estudar e ler. Minha TBR virou uma biblioteca e tem vários cursos online (pagos e gratuitos) que quero fazer, incluindo duas pós-graduações que comprei e nem comecei. Mas não sei como encontrar forças. Também queria voltar a estudar para o concurso que pode me proporcionar um emprego dos sonhos, mas chego em casa tão exausta que só consigo scrollar infinitamente e entorpecer meu cérebro para conseguir dormir. Dia após dia, minha vida se transformou nisso e eu não sei como mudar - sinceramente, também não estou me esforçando muito. É complicado.

Mas, veja pelo lado bom, pelo menos o caso da Morgan Violi foi solucionado pelo FBI.

aces high

Meu gato morreu na semana passada. No fim de semana, fiquei olhando umas fotos dele, o que evoluiu para olhar várias fotos antigas, o que evoluiu para uma tristeza ainda mais aguda. De vez em quando me vejo naquela cena de Bastardos Inglórios em que a mulher levou um tiro na perna e o Eli Roth enfia o dedo na ferida, empurrando a bala mais para dentro da carne; ou nesse episódio do Último Programa do Mundo. Mais sofrimento!

Para não dizer que não tirei nada disso (because if I don't, that means that all the damage I got isn't good damage, it's just damage), fiquei obcecada em descobrir qual o número do voo e o modelo da aeronave da minha primeira viagem de avião. Eu deveria ter guardado o bilhete impresso, claro, mas não guardei, o que me levou por um tour de pesquisas no Google (e muitos sites de nerds da aviação), metadados de fotos e o site da Agência Nacional de Aviação Civil - sobre esse último, só posso dizer: como é bom viver num país onde a publicidade é um princípio constitucional

Enfim, meu primeiro voo aconteceu no dia 18/08/2018, a bordo de um Embraer E195 matrícula PR-AXF que decolou do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte/Confins – Tancredo Neves (ICAO: SBCF) pontualmente às 12h30 e pousou no Aeroporto Internacional de Viracopos-Campinas (ICAO: SBKP) às 14h28 (com 2 minutos de antecedência). 

Ainda sobre a aeronave: